coágulos de sombra
  de Charles Bukowski

 

à puta que levou meus poemas

 

dizem que devemos evitar remorsos pessoais no

poema

ficar abstrato, e há alguma razão nisso

mas, jezus

doze poemas perdidos e eu não faço cópias e você pegou

minhas

pinturas também, as melhores; é sufocante:

você está tentando me arrebentar como o resto delas?

por quê você não pegou meu dinheiro? elas geralmente pegam

das calças do bêbado adormecido vomitando no canto

na próxima leve meu braço esquerdo ou cinqüentinha

mas não meus poemas:

eu não sou Shakespeare

mas uma hora simplesmente

não vai haver mais nada, abstratos ou não;

sempre vai existir dinheiro e putas e bêbados

até a última bomba,

mas como Deus disse,

cruzando as pernas,

vejo agora que fiz muitos poetas

mas nem tanta

poesia



Escrito por Belina&Médici às 15h44
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  em 62 Modelo para Armar

uns olhos masculinos

 

Eu me despira mais longe, meio escondido pela porta encostada do armário, e ao voltar havia enxergado o desenho de seu corpo sob o lençol, uma mancha de sol em cima do tapete, uma meia que parecia flutuar na barra de bronze da cabeceira da cama. Esperara um momento, incapaz ainda de acreditar que tudo aquilo era possível, jogara um roupão em cima dos meus ombros e depois, de joelhos junto à cama, puxara o lençol lentamente até ver despontar o cabelo de Célia, seu perfil colado ao travesseiro, os olhos fechados, o colo e os ombros, daí algo como uma deusa menina saindo lentamente da água enquanto o lençol continuava descendo e o mistério se tornava sombra azul e cor-de-rosa sob as manchas de sol da clarabóia, um corpo Bonnard nascendo traço a traço sob minha mão que puxava o lençol reprimindo o desejo de arrancá-lo de um puxão, revelando o mistério do nunca visto por ninguém, o nascimento das ancas, os seios mal defendidos pelos braços cruzados, a cintura fina, o sinal do nascimento das ancas, a linha de sombra que dividia sua carne e se perdia entre as coxas protetoras, a lisura da parte de trás do joelho e outra vez o familiar, a barriga das pernas bronzeadas, o diurno e comum depois daquela zona guardada, os tornozelos e os pés como cavalinhos adormecidos no fundo da cama.

 

uns olhos femininos

 

Passou tanto tempo, talvez com os olhos fechados o tempo fosse diferente, no começo fora um grande silêncio, um sapato caindo no chão, uma porta de armário que guinchava, uma proximidade, pois sentira que os lençóis escorregavam pouco a pouco, e a cada instante eu havia esperado o peso de seu corpo contra o meu para virar-me e abraçá-lo e pedir-lhe que fosse bom e tivesse paciência, mas o lençol continuou escorregando e tive medo, uma imagem diferente voltou por um segundo e estive a ponto de gritar, mas era bobagem, sabia que era bobagem e teria preferido virar-me de repente e sorrir-lhe, mas não queria vê-lo assim nu como uma estátua junto da cama, continuava esperando enquanto o lençol descia até que eu também me senti nua e não agüentei mais e me ergui virando-me, e Austin estava embrulhado num roupão, de joelhos e me olhando, e eu procurei o lençol para me cobrir mas ele o havia jogado longe e agora me olhava de frente e suas mãos procuravam meus seios, anoitecer, clarabóia sombria, passos na escada, ranger do armário, tempo, amêndoas, os chocolates, a noite, o copo de água, estrela clarabóia, calor, água da colônia, vergonha, cachimbo, manta, vira-te, assim, cansada, sentes? me cobre, batem à porta, me deixa, sede, você cheira a mar agitado, você a fumo de cachimbo, quando era menino me davam banho com água de forragem -- quando era menina me chamavam de Lala, está chovendo? aqui você pe morena, bobo, estou com frio, não me olhe assim, me cobre de novo, amêndoas, quem te deu esse perfume? Acho que foi Tell, por favor, me cobre mais um pouco, mas então era medo, por isso você ficava quieta? sim, já te conto, desculpa, não pensei que você ia ter medo, só achei que você estava esperando, é claro que esperava, que te esperava.

 

(de Julio Cortázar)



Escrito por Belina&Médici às 09h24
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  em 62 Modelo para Armar

Como dizê-lo a alguém se tu mesmo não poderias saber que a menção do teu nome, o trânsito de tua imagem em qualquer lembrança alheia me despe e me vulnera, me joga dentro de mim mesma com esse impudor total que nenhum espelho, nenhum ato amoroso, nenhuma reflexão impiedosa podem dar com tanto rancor; que te quero bem à minha maneira e que esse carinho te condena porque te torna meu delator, aquele que por me querer e por ser querido me despoja e me despe e me faz ver-me tal qual sou; alguém que tem medo e que não o dirá jamais, alguém que faz de seu medo a força que a leva a viver como vive.

 

(de Julio Cortázar)



Escrito por Belina&Médici às 17h07
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Escrito por Belina&Médici às 09h45
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  em Os Autonautas da Cosmopista

quase nunca aceitei o nome-rótulo das coisas e penso que isso se reflete em meus livros. Não vejo motivo para tolerar invariavelmente o que nos vem de antes e de fora, e então fui colocando, nas pessoas que amei e que amo, nomes que nasciam de um encontro, de um contato entre chaves secretas, e aí mulheres foram flores, foram pássaros, foram bichinhos do bosque, e houve amigos com nomes que até mudavam depois de completo o ciclo, o urso podia virar macaco, como alguém de olhos claros foi nuvem e depois gazela e noite que se tornou mandrágora,

 

(de Julio Cortázar)



Escrito por Belina&Médici às 09h16
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  em 62 Modelo para Armar

ou estarei contigo, amor meu, porque contigo desci alguma vez

         para a minha cidade

e num bonde espesso de passageiros estranhos sem figura

         compreendi

que a abominação se aproximava, que ia acontecer o Cão e quis

aconchegar-te a mim, te proteger do espanto,

mas tantos corpos nos separavam, e quando te obrigavam a

         descer entre um confuso movimento

não pude te seguir, lutei com a goma insidiosa de lapelas e caras,

com um guarda impassível e a velocidade e campainhas,

até me arrancar numa esquina e pular e estar só numa praça

        ao crepúsculo

e saber que gritavas e gritavas perdida na minha cidade, tão

        perto e inencontrável,

para sempre perdida em minha cidade, e isso era o Cão, era o

        encontro,

 

 

(de Julio Cortázar)

 



Escrito por Belina&Médici às 09h05
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  em O Último Round

 

 

Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha -saiba disso, onde quer que você estiver- é o perfume do tabaco claro que me devolve à tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda. Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas, e sim aquela vaga equívoca fragrância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra das tuas costas contra o branco velame dos lençóis. Não me olhes aí da tua ausência com essa gravidade um tanto infantil que fazia do teu rosto uma máscara de jovem faraó núbio. Acho que sempre ficou bem entendido que nós só daríamos um ao outro o prazer e as festas leves do álcool e das ruas vazias da meia-noite. De ti não tenho mais do que isso, mas na lembrança me voltas nua e derramada, nosso planeta mais preciso foi a cama em que lentas, imperiosas geografias iam nascendo das nossas viagens, de tantos desembarques amáveis ou resistidos, de comitivas com cestas de frutas ou flecheiros à espreita, e ganhamos cada poço, cada rio, cada colina e cada planície em noites extenuantes, em meio a obscuros parlatórios de aliados ou inimigos. Oh, viajante de ti mesma, máquina de esquecimento! E então passo a mão pela cara num gesto distraído e o perfume do tabaco em meus dedos te traz para me arrancar outra vez desse presente costumeiro, te projeta antílope na tela desse leito onde vivemos os intermináveis caminhos de um efêmero encontro...


(de Júlio Cortázar)

 



Escrito por Belina&Médici às 08h40
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  em torno da cabeça

 

 

Se na narrativa fantástica, com sua oscilação entre real e irreal, é a própria ambiguidade na visão do mundo que se torna responsável pelo envolvimento do leitor, em outros textos cortazarianos é esse princípio formal básico |da montagem| para os surrealistas que leva o leitor a participar diretamente na estruturação da obra, montando os fragmentos, escolhendo os rumos e desdobramentos da construção.

 

(...)

 

Desse ângulo, o protótipo do artista contemporâneo, pela conciliação das tendências mais opostas, seria Pablo Picasso, que deforma a realidade em infinitas variantes, denunciando seu caráter arbitrário e pondo em xeque a identidade dos objetos representados, bem como a do próprio artista. Nesse sentido, aproximando-se do artista padrão, o estudioso das literaturas em língua portuguesa lembraria, imediatamente, o exemplo importante de Fernando Pessoa, com seus desconcertantes heterônimos, e o estudioso das literaturas em língua espanhola, os de Borges e de Cortázar, com sua mistura de realidade e sonho, de naturalismo e imaginação, com os jogos especulares entre o eu e o outro, os desdobramentos da personalidade com misteriosas correspondências no espaço geográfico e no literário, com esse impressionante testemunho de um mundo múltiplo e caótico, como um labirinto, que acaba por se traduzir na conjetura ou na busca de um ponto a partir do qual se descortine ou se ordene o caos universal.

 

(...)

 

...uma multiplicidade de elementos heterogêneos, para além do tempo e do espaço, se cristalizaria numa revelação da realidade. A busca desse ponto onde seria possível uma supervisão da realidade integral...

 

(em O Escorpião Encalacrado de Davi Arrigucci Jr.)

 

-~-

 

Aderir a uma palavra fechada pela pressão de todos aqueles que não a falam é manifestar o próprio movimento de uma escolha, senão defender essa escolha;

 

(...)

 

a escrita à qual me entrego é já toda instituição; ela desvenda o meu passado e a minha escolha, dá-me uma história, escancara a minha situação, engaja-me sem que eu precise dizê-lo.

 

(...)

 

toda escrita política não pode senão confirmar um universo policial, assim também toda escrita intelectual não pode senão instituir uma paraliteratura que não ousa mais dizer o próprio nome. O impasse dessas escritas é pois total, elas não podem remeter senão a uma cumplicidade ou a uma impotência, isto é, de qualquer modo, a uma alienação.

 

(em O Grau Zero da Escrita de Roland Barthes)

 

-~-

 

Angústia

Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.

 

(de Stéphane Mallarmé)



Escrito por Belina&Médici às 22h14
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  em 62 Modelo para armar

 

talvez agora pudesse passar para a outra linguagem que havia assomado ao limiar da percepção, pássaro caído e desesperado de fuga, batendo asas contra a rede e dando-lhe sua forma, síntese de rede na qual só havia fuga ou forma de rede ou sombra de pássaro, a própria fuga prisioneira um instante no puro paradoxo de fugir na rede que a apanhava com as mínimas malhas de sua própria dissolução

 

(de Julio Cortázar)



Escrito por Belina&Médici às 00h34
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  em O Escorpião Encalacrado

O jogo-invenção configura, assim, um texto caleidoscópico, uma imagem, aliás, recorrente no seu interior; modela uma constelação de fragmentos em torno das unidades fundamentais do enredo, fazendo-as espraiar-se, esgarçando-as labirinticamente, cristalizando as figuras em que, para Cortázar, se trama a complexidade do real: "Leyendo el libro, se tenía por momentos la impresión de que Morelli había esperado que la acumulación de fragmentos cristalizara bruscamente en una realidade total" (Rayuela).

 

(de Davi Arrigucci)



Escrito por Belina&Médici às 00h04
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porque quando me pediu o rosto entre suas mãos, escorregava os olhos de onde me doía, por onde eu fraquejava, e sob uma dezena de vírgulas em seus gestos, que era quando punha para descansar sua vontade como ninasse a um filho novo e me conquistava um sorriso de desafio e torpor, e eu ia me perdendo em suas durações, o naufrágio daqueles pés descalços, do esmalte azul afogando as unhas; ancorou bem perto, e tive de pausar a respiração porque sabia que era cedo demais para conhecer seu hálito marítmo, "eu poderia escolher uma trama bem cadenciada de guitarra e baixo e uma voz negra chorosa, um blues enfim, que nos deixasse mais íntimos" - querendo trazê-la um pouco para mim também, mas virou-se de costas, e "a estação de blues terminou tem um mês, quando a primavera chegou. me pense outra pessoa se precisar coragem, alguém com quem suas palavras não venham tão dosadas" - num tom que se afinava no mesmo teor das frases, que gostei por me irritar feito jogada injusta e me permitir sacar ofensas em revide, recomeçaria numa voz mais fria agora, numa distância empedrada, trataria dos pormenores da separação, aluguel contas móveis livros quadros televisão, até que sua distração fosse a bastante



Escrito por Belina&Médici às 00h57
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  e quando cortázar

"Ser poeta es ansiar, pero sobre todo obtener en la exacta medida en que se ansia"

 

en La vuelta al día en ochenta mundos.



Escrito por Belina&Médici às 23h14
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Escrito por Belina&Médici às 22h58
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  em Histórias de Cronópios e de Famas

Historia verídica

 

 Um senhor deixa cair ao chão os óculos, que fazem um barulho terrível ao bater nos ladrilhos. O senhor se abaixa aflitíssimo porque as lentes dos óculos custam muito caro, mas descobre assombrado que por milagre elas não se quebraram.

 Agora esse senhor sente-se profundamente grato, e compreende que o acontecimento vale por uma advertência amistosa, de maneira que se dirige a uma ótica e compra logo um estojo de couro acolchoado, com proteção dupla, como precaução. Uma hora depois deixa cair o estojo e ao abaixar-se sem maior preocupação verifica que os óculos viraram farelo. Esse senhor leva tempo para compreender que os desígnios da Providência são insondáveis e que na realidade o milagre aconteceu agora.

 

(Júlio Cortázar)



Escrito por Belina&Médici às 04h31
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  em O Jogo da Amarelinha



"Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.

Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.

Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura.

E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água."
(capítulo sete)
Júlio Cortázar

Escrito por Belina&Médici às 15h05
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