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em 62 Modelo para Armar
uns olhos masculinos Eu me despira mais longe, meio escondido pela porta encostada do armário, e ao voltar havia enxergado o desenho de seu corpo sob o lençol, uma mancha de sol em cima do tapete, uma meia que parecia flutuar na barra de bronze da cabeceira da cama. Esperara um momento, incapaz ainda de acreditar que tudo aquilo era possível, jogara um roupão em cima dos meus ombros e depois, de joelhos junto à cama, puxara o lençol lentamente até ver despontar o cabelo de Célia, seu perfil colado ao travesseiro, os olhos fechados, o colo e os ombros, daí algo como uma deusa menina saindo lentamente da água enquanto o lençol continuava descendo e o mistério se tornava sombra azul e cor-de-rosa sob as manchas de sol da clarabóia, um corpo Bonnard nascendo traço a traço sob minha mão que puxava o lençol reprimindo o desejo de arrancá-lo de um puxão, revelando o mistério do nunca visto por ninguém, o nascimento das ancas, os seios mal defendidos pelos braços cruzados, a cintura fina, o sinal do nascimento das ancas, a linha de sombra que dividia sua carne e se perdia entre as coxas protetoras, a lisura da parte de trás do joelho e outra vez o familiar, a barriga das pernas bronzeadas, o diurno e comum depois daquela zona guardada, os tornozelos e os pés como cavalinhos adormecidos no fundo da cama. uns olhos femininos Passou tanto tempo, talvez com os olhos fechados o tempo fosse diferente, no começo fora um grande silêncio, um sapato caindo no chão, uma porta de armário que guinchava, uma proximidade, pois sentira que os lençóis escorregavam pouco a pouco, e a cada instante eu havia esperado o peso de seu corpo contra o meu para virar-me e abraçá-lo e pedir-lhe que fosse bom e tivesse paciência, mas o lençol continuou escorregando e tive medo, uma imagem diferente voltou por um segundo e estive a ponto de gritar, mas era bobagem, sabia que era bobagem e teria preferido virar-me de repente e sorrir-lhe, mas não queria vê-lo assim nu como uma estátua junto da cama, continuava esperando enquanto o lençol descia até que eu também me senti nua e não agüentei mais e me ergui virando-me, e Austin estava embrulhado num roupão, de joelhos e me olhando, e eu procurei o lençol para me cobrir mas ele o havia jogado longe e agora me olhava de frente e suas mãos procuravam meus seios, anoitecer, clarabóia sombria, passos na escada, ranger do armário, tempo, amêndoas, os chocolates, a noite, o copo de água, estrela clarabóia, calor, água da colônia, vergonha, cachimbo, manta, vira-te, assim, cansada, sentes? me cobre, batem à porta, me deixa, sede, você cheira a mar agitado, você a fumo de cachimbo, quando era menino me davam banho com água de forragem -- quando era menina me chamavam de Lala, está chovendo? aqui você pe morena, bobo, estou com frio, não me olhe assim, me cobre de novo, amêndoas, quem te deu esse perfume? Acho que foi Tell, por favor, me cobre mais um pouco, mas então era medo, por isso você ficava quieta? sim, já te conto, desculpa, não pensei que você ia ter medo, só achei que você estava esperando, é claro que esperava, que te esperava. (de Julio Cortázar)
Escrito por Belina&Médici às 09h24
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