coágulos de sombra
  em O Último Round

 

 

Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha -saiba disso, onde quer que você estiver- é o perfume do tabaco claro que me devolve à tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda. Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas, e sim aquela vaga equívoca fragrância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra das tuas costas contra o branco velame dos lençóis. Não me olhes aí da tua ausência com essa gravidade um tanto infantil que fazia do teu rosto uma máscara de jovem faraó núbio. Acho que sempre ficou bem entendido que nós só daríamos um ao outro o prazer e as festas leves do álcool e das ruas vazias da meia-noite. De ti não tenho mais do que isso, mas na lembrança me voltas nua e derramada, nosso planeta mais preciso foi a cama em que lentas, imperiosas geografias iam nascendo das nossas viagens, de tantos desembarques amáveis ou resistidos, de comitivas com cestas de frutas ou flecheiros à espreita, e ganhamos cada poço, cada rio, cada colina e cada planície em noites extenuantes, em meio a obscuros parlatórios de aliados ou inimigos. Oh, viajante de ti mesma, máquina de esquecimento! E então passo a mão pela cara num gesto distraído e o perfume do tabaco em meus dedos te traz para me arrancar outra vez desse presente costumeiro, te projeta antílope na tela desse leito onde vivemos os intermináveis caminhos de um efêmero encontro...


(de Júlio Cortázar)

 



Escrito por Belina&Médici às 08h40
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  em torno da cabeça

 

 

Se na narrativa fantástica, com sua oscilação entre real e irreal, é a própria ambiguidade na visão do mundo que se torna responsável pelo envolvimento do leitor, em outros textos cortazarianos é esse princípio formal básico |da montagem| para os surrealistas que leva o leitor a participar diretamente na estruturação da obra, montando os fragmentos, escolhendo os rumos e desdobramentos da construção.

 

(...)

 

Desse ângulo, o protótipo do artista contemporâneo, pela conciliação das tendências mais opostas, seria Pablo Picasso, que deforma a realidade em infinitas variantes, denunciando seu caráter arbitrário e pondo em xeque a identidade dos objetos representados, bem como a do próprio artista. Nesse sentido, aproximando-se do artista padrão, o estudioso das literaturas em língua portuguesa lembraria, imediatamente, o exemplo importante de Fernando Pessoa, com seus desconcertantes heterônimos, e o estudioso das literaturas em língua espanhola, os de Borges e de Cortázar, com sua mistura de realidade e sonho, de naturalismo e imaginação, com os jogos especulares entre o eu e o outro, os desdobramentos da personalidade com misteriosas correspondências no espaço geográfico e no literário, com esse impressionante testemunho de um mundo múltiplo e caótico, como um labirinto, que acaba por se traduzir na conjetura ou na busca de um ponto a partir do qual se descortine ou se ordene o caos universal.

 

(...)

 

...uma multiplicidade de elementos heterogêneos, para além do tempo e do espaço, se cristalizaria numa revelação da realidade. A busca desse ponto onde seria possível uma supervisão da realidade integral...

 

(em O Escorpião Encalacrado de Davi Arrigucci Jr.)

 

-~-

 

Aderir a uma palavra fechada pela pressão de todos aqueles que não a falam é manifestar o próprio movimento de uma escolha, senão defender essa escolha;

 

(...)

 

a escrita à qual me entrego é já toda instituição; ela desvenda o meu passado e a minha escolha, dá-me uma história, escancara a minha situação, engaja-me sem que eu precise dizê-lo.

 

(...)

 

toda escrita política não pode senão confirmar um universo policial, assim também toda escrita intelectual não pode senão instituir uma paraliteratura que não ousa mais dizer o próprio nome. O impasse dessas escritas é pois total, elas não podem remeter senão a uma cumplicidade ou a uma impotência, isto é, de qualquer modo, a uma alienação.

 

(em O Grau Zero da Escrita de Roland Barthes)

 

-~-

 

Angústia

Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.

 

(de Stéphane Mallarmé)



Escrito por Belina&Médici às 22h14
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