coágulos de sombra


e você pensa que vai precisar cobrir a guitarra com um lençol para não estragar o sono tão curtinho que você embala toda noite (sentado holograficamente na esquina do colchão dela) cantando as TERRÁQUEANAS de bowie



Escrito por Belina&Médici às 01h50
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em Contos de Amor Rasgados

 

 

A Paixão da sua Vida

 

"Amava a morte. Mas não era correspondido.
Tomou veneno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.
Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração."

 

(de Marina Colasanti)

 



Escrito por Belina&Médici às 23h45
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"falei-lhe de sua mecha de cabelo, de sua bolsa vermelha, de seu modo de olhar para o anúncio das termas, de que não lhe tinha sorrido por donjuanismo nem tédio mas para dar-lhe uma flor que não possuía"

 

"quando o trem começava a frear em Saint-Placide olhei e olhei para Margrit procurando-lhe os olhos que Ana continuava encostando suavemente nas coisas do vagão como que admitindo que Margrit não olharia mais para mim, que era inútil esperar que voltasse a olhar o reflexo que a esperava para sorrir-lhe"

 

"'tenho sede, (...), quero beber' eu disse já coberto de queimaduras"

 

"eu te prometo de coração sincero, e nem será preciso qualquer esforço, mas tudo, (...), tudo começa no teu amor, ele é o núcleo, ele é a semente, o teu amor para mim é o princípio do mundo"

 

"'Toma-me, se quiser, você está vendo que não prometo nada, que continuo a mesma. Se você se acha mais forte, se imagina que pode me mudar, toma-me agora mesmo. É o menos que posso te dar e é tudo o que posso te dar.' Senti que ele tremia encostado em mim, ofereci-lhe minha boca suja de palavras, agradecendo-lhe por ter me feito calar, por me tornar um objeto obediente em seus braços."

 

 



Escrito por Belina&Médici às 08h46
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onde estão nossos mapas?

não consigo te escrever, ando mergulhado numa semana de saudades de (...), eu iria me deter nas lembranças de nossos banhos, no desenho do teu quadril, na pele das tuas coxas, numa calcinha lilás com lacinhos, na cor do sol acordando sua nudez, na doce violência da tua boca me engolindo, no gosto dos teus seios, e não acho que ler mais disso te ajudaria em alguma coisa.



Escrito por Belina&Médici às 09h50
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em O Livro de Manuel

"1) A realidade existe ou não existe, em todo caso é incompreensível na sua essência, assim como as essências são incompreensíveis na realidade, e a compreensão é outro espelho para calhandras, e a calhandra é um passarinho, e passarinho é o diminutivo de pássaro e a palavra pássaro tem três sílabas, e a primeira sílaba tem três letras e as outras sílabas têm duas letras, e é assim que se vê que a realidade existe (com calhandras e sílabas) mas que é incompreensível, porque além disso o que significa significar, ou seja, entre outras coisas dizer que a realidade existe; 2) A realidade será incompreensível, porém existe, ou pelo menos é algo que nos acontece ou que cada um faz acontecer, de modo que uma alegria, uma necessidade elementar leva a esquecer tudo o que foi dito (em 1) e passar a 3) Acabamos de aceitar a realidade (em 2), seja o que for ou como for, e por conseguinte aceitamos estar instalados nela, mas ali mesmo sabemos que, absurda ou falsa ou trucada, a realidade é um fracasso do homem, mesmo que não o seja do passarinho que voa sem se fazer perguntas e morre sem saber. Assim, fatalmente, se acabamos de aceitar o dito em 3), há que passar para 4) Esta realidade, no nível de 3), é uma fraude e há que mudá-la. Aqui bifurcação, 5 a) e 5 b):

                                                                                                                                                                                                                            - Ufa - diz Marcos:

5 a) Mudar a realidade só para mim - continua aquele de quem lhe falei - é velho e factível: Meister Eckart, Meister Zen, Meister Vedanta. Descobrir que o eu é ilusão, cultivar seu jardim, ser santo, conseguir o objetivo, etcétera. Não.

                                                                                                                                                                                                                            - Você faz bem - diz Marcos.

5 b) Mudar a realidade para todos - continua aquele de quem lhe falei - é aceitar que todos são (deveriam ser) o mesmo que eu, e de alguma maneira fundar o real como humanidade. Isso significa admitir a história, isto é, a corrida humana por uma pista falsa, uma realidade aceita até agora como real, e assim vivemos. Consequência: há só um dever, que é encontrar a boa pista. Método, a revolução. Sim."

 

 

(de Julio Cortázar)



Escrito por Belina&Médici às 08h28
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em O Amor nos Tempos do Cólera

"o coração tem mais quartos que uma pensão de putas"

 

 

"e tornou a morder a língua para que a verdade não saísse pelas tantas goteiras que tinha no coração"

 

(de Gabriel García Márquez)

 



Escrito por Belina&Médici às 19h08
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Belina, de cotovelos boiando na superfície do colchão, usava meu umbigo como cinzeiro enquanto o quarto chamuscava do sol, atacando da janela aberta, e riscava minha barriga caminhando com os dedos de saltos vermelhos, aquele animal bípede sem sexo ou pensamentos, longe da direção de seus olhos pregados na estante, que despaginavam os livros de lombadas voltadas para a parede, que não aguentavam mais sentir faltar coração naquelas palavras, que descascavam a tinta gasta do quarto e se aproximavam determinados a cavar também os tijolos, atrás de que frase?, quando minha voz querendo alcançar sua quase tristeza, estancar seu pulso desgovernado, cruzou a fumaça de seu cigarro, “cuidado, não vai achar nada por aí”, e, nos três segundos que separaram minha fala de sua escuta, seus lábios compreenderam primeiro minha vontade, um sorriso virou seu rosto de volta pra mim, e agora havia a joni mitchell na vitrola, que havíamos demorado tanto para escolher antes de nos despirmos, “preciso me apaixonar de novo, sabe? às vezes sinto que sobra sangue em mim, tenho tão poucas veias, querido, e você não pode nem pensar em me emprestar as suas porque tem medo de agulha”, quis balbuciar o refrão da música e sentir seus cabelos se deitando em meu peito, descansando sua respiração, mas meu inglês me deixou na mão.



Escrito por Belina&Médici às 00h56
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de Mark Rubenstein

 



Escrito por Belina&Médici às 20h32
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em Cordel do Fogo Encantado

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

 

(de Zé da Luz)



Escrito por Belina&Médici às 20h15
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em Jeux d'Enfants

"Está jogando outra vez?
É pura felicidade.
Ótimo!
Pode reduzir tudo.
É melhor que as drogas, cocaína
de alta pureza, crack...
Cana Índia, LSD, alucinogénos,
cannabis, ecstasy.
Melhor que o sexo, mamadas, raves
e relações complicadas.
Melhor que a comida,
que a manteiga.
Melhor que Lucas,
no final de 2001.
Que o baile de Marylin,
a Schtroumpfette, Lara Croft...
Que a melhor peça de teatro
alguma vez feita.
Melhor que Jimmy
Hendrix, que Armstrong.
Melhor que sair que dar uma
volta com o Papai Noel
Melhor que Bill Gates, que os transes
do Dalai-Lama.
Melhor que a testosterona ou o silicone
nos lábios da Pamela Anderson.
Melhor que as drogas
de Rimbaud, de Morrison.
Melhor que a liberdade.
Melhor que a vida."



Escrito por Belina&Médici às 11h17
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em O Amor nos Tempos de Cólera

"Então apelou para suas últimas forças e obrigou o marido a discutir sem evasivas, a lhe fazer frente, a brigar com ela, a chorarem juntos de raiva pela perda do paraíso, até que ouvissem cantar os últimos galos, e a luz se fez pelos beirais do palácio, e se acendeu o sol, e o marido inflamado de tanto falar, esgotado de não dormir, com o coração fortalecido de tanto chorar, apertou os cordões das botas, apertou o cinto, apertou tudo o que ainda lhe restava de homem, e lhe disse que sim, meu amor, que iam buscar o amor que havia fugido deles..."

(de Gabriel García Márquez)

 



Escrito por Belina&Médici às 22h44
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em Factótum

"Tive um palpite, entrei, e lá estava Jan, sentada bem no fundo do salão. Trazia um lenço de seda, branco e verde, atravessado sobre o colo. Sentava-se entre um homem magro, com uma enorme verruga no nariz, e outro que era um pequeno amontoado de carne, com óculos bifocais e um velho terno preto.

  Jan me viu chegar. Ergueu a cabeça e, mesmo na escuridão do bar, eu a vi empalidecer. Caminhei até lá por detrás dela, plantando-me junto ao seu banco.

  - Tentei fazer de você uma mulher, mas você jamais deixará de ser uma puta desgraçada!

  Dei-lhe uma bofetada com o dorso da mão que a derrubou do banco. Ela caiu estatelada no chão e começou a gritar. Peguei seu drinque e tomei. Então fui me dirigindo lentamente para a saída. Ao chegar lá, dei meia-volta.

  - Bem, se há alguém aqui... que não aprova o que acabei de fazer... se manifeste.

  Não houve resposta. Creio que todos aprovaram meu ato. Retornei à Alvorada Street."

 

(de Charles Bukowski)

 

 

 



Escrito por Belina&Médici às 18h49
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em O Amor nos Tempos de Cólera

"Na plenitude de suas relações, Florentino Ariza se perguntara qual dos dois estados seria o amor, o da cama turbulenta ou o das tardes aprazíveis dos domingos, e Sara Noriega o tranquilizou com o argumento singelo de que tudo que fizessem nus era amor."

 

 

 

(de Gabriel García Márquez)



Escrito por Belina&Médici às 01h55
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podia ser até o garoto por quem se apaixonara duma ligação enganada, que estudava demonologia e passava as tardes entregando currículos em institutos de teologia e escritórios políticos, e que telefonava todos os dias antes de ela bater o ponto, mas não era por isso



Escrito por Belina&Médici às 00h49
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Catarina, primeiro, gostei do nome embora não tanto para filha, mas de qualquer forma poderia ser gasto numa personagem, e Samuel veio irmanar-se já pelo fim da frase. Quando levantei meus ombros monstruosamente para armar os dedos, e tinha a saliva a ponto de despencar da boca sobre o teclado, era para ser a história de um triângulo amoroso entre adolescentes, skatistas até, e veio a sudorese do narrador para tampar minhas orelhas de abano autobiográficas, e chegando num caminhão de mudanças Catarina crescera bem ligada ao horóscopo, apelidando cada cômodo de sua casa com um signo e temperamento, e se coubesse teria uns pais bem chatos que a obrigavam a repetir os nomes das plantas que cultivavam do jeito que tinham se apropriado dos livros que liam, e ela envelheceria odiando Dostoiévski desde os 3 anos de idade. Imagina a quantidade de orgulho que bate em alguém que pode dizer isso: odeio Dostoiévski desde os 3.



Escrito por Belina&Médici às 23h37
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